sábado, 30 de abril de 2011

Canção para a Minha Mãe /Minha Mãe, Minha Mãe!



CANÇÃO PARA MINHA MÃE

E sem um gesto, sem um não, partias!
Assim a luz eterna se extinguia!
Sem um adeus, sequer, te despedias,
Atraiçoando a fé que nos unia!


Terra lavrada e quente,
Regaço de um poeta criador,
Ias-te embora antes do sol poente,
Triste como semente sem calor!


Ias, resignada, apodrecer
À sombra das roseiras outonais!
Cor da alegria, cântico a nascer,
Trocavas por ciprestes pinheirais!


Mas eu vim, deusa desenganada!
Vim com este condão que tu conheces,
E toquei essa carne macerada
Da vida palpitante que mereces!


Porque tu és a Mãe!
Pariste um dia aos gritos e aos arrancos,
E parirás ainda pelo tempo além,
Mesmo ser madre e de cabelos brancos!


És e serás a faia que balança ao vento
E não quebra nem cede!
Se te pediu a paz do esquecimento,
Também a força de lutar te pede!


Respira, pois, seiva da duração,
Nos meus pulmões até, se te cansaste;
Mas que eu sinta bater o coração
No peito onde em menino me embalaste.


Miguel Torga, Diário (III)


imagem do google


Minha mãe, minha mãe! Ai que saudade imensa,
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
Dormia quieto e manso o impávido lebreu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
E a Lua branca, além, por entre as oliveiras,
Como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu!
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a Lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
Que mandasse um alivio a cada sofrimento,
Que mandasse urna estrela a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia.
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paixões e por todas as mágoas
Pelos míseros que entre os uivos das procelas
Vão em noite sem lua e num barco sem velas
Errantes através do turbilhão das águas.
O meu coração puro, imaculado e santo
Ia ao trono de Deus pedir, como inda vai,
Para toda a nudez um pano do seu manto,
Para toda a miséria o orvalho do seu pranto
E para todo o crime o seu perdão de Pai!


Guerra Junqueiro

18 comentários:

pinguim disse...

É extraordinário o valor inspirativo que a Mãe transmite às pessoas.
Sejam ricas ou pobres, de uma raça ou de outra, variando os credos religiosos e as zonas onde habitam, as pessoas veneram a Mãe, aquela que os gerou em si própria.
E ver homens rudes, não no seu dia a dia, mas na imagem que transmitiam. como Miguel Torga ou Guerra Junqueiro irmanados nesse amor filial através da poesia é muito belo.

gaivota disse...

minha Mãe, minha Mãe!
apetecia-me roubar este post...
bem hajas, querida
beijinhosssssssssssss milessssssss

isa disse...

Belos Poemas à Mãe,merecedora de tudo!
Belo post!
Beijo.
isa.

Andradarte disse...

Se as mães merecem uma homenagem...
esta aqui é bem merecida....Gosto de
Torga...me encantou Guerra Junqueiro,
que não conhecia...
Parabéns mamãs..
Beijo

rouxinol de Bernardim disse...

A Mãe como fonte inspiradora é eterna...O tema é inesgotável, estas opções estão sempre presentes em todos nós...
Parabéns!

Filoxera disse...

Lindos...
Um beijo.

De Amor e de Terra disse...

Parabéns Amiga; relembraste e fizeste-nos relembrar estes dois GRANDES e as suas homenagens à Mãe.
Um beijo enorme.
Maria Mamede

Daniel Silva (Lobinho) disse...

"A chuva, outra vez sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
Se minha mãe já se foi embora,
Já não vem à varanda para a ver cair,
Já não levanta os olhos da costura
Para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
A chuva sobre o teu rosto."




Eugénio de Andrade

aflores disse...

MÃE...palavras para quê?

Serão sempre poucas, as palavras, mas hoje de manhã lembrei-me muito dela, da minha Mãe, e recordei momentos felizes e carinhosos.

E é bom recordar.

Tudo de bom.

Ana disse...

Entre todos os poemas que deixaste, não consigo escolher de qual gosto mais!
Obrigada por esta partilha! Uma homenagem que as Mães merecem!
Um beijo para ti, Isamar !

Parapeito disse...

belo belo belo este momento dedicado á Mãe
Bem-Haja
brisas doces para todos***

o escriba disse...

Revi-me nestes poemas à Mãe, porque já não a tenho e as saudades são sempre muitas.

Obrigada!
bjs
Esperança

Mar Arável disse...

Do ventre

até à foz

Mariazita disse...

Maravilhosos poemas de homenagem à Mãe!
Miguel Torga é um dos "meus preferidos".
O poema de Guerra Junqueiro já o soube de cor porque, quando andava na escola primária, recitei-o em duas festinhas da escola.
Nesse tempo tinha a memória fresca:) e decorei-o.

Postagem óptima!
Obrigada pela partilha.

Boa semana. Beijinhos

tecas disse...

Belíssimos poemas à Mãe. Atrasada deixo os meus sinceros parabéns aos autores e a si, pelo bom gosto de os postar.
Bjito e uma flor

Evanir disse...

Querida Amiga ..
Creio que todas as homenagens do Mundo seria pouco para homenagear nossas mães .
Eu olho para o céu e sempre a noite
Jogo um beijo pra minha que hoje no meu peito só restou uma saudade muito doida.
Em minha homenagem as mães de Portugal chorei a cada resposta de carinho desse Pais que me receberam com extremo carinho.
Um lindo final de tarde.Uma noite de sonhos beijos ,Evanir.

www.aviagem1.blogspot.com

© Piedade Araújo Sol disse...

homenagem à mãe.

gostei!

beij

JPD disse...

O calendário anual de efemérides está praticamente esgotado.

Para o Dia da Mãe guardo uma emoção especial, embora ela já há muito tempo que partiu.

No entanto, nunca deixa de ser umdia especial

bjs