sexta-feira, 29 de abril de 2011

Poema à Mãe / Agora que morreste Mãe

Imagem do google


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Eugénio de Andrade


Imagem do google


Agora que morreste MãeE só em mim te tenho

Sou mais que o meu tamanho

Porque sou tu também

Tuas mãos afagam as minhas mãos

De quem são estes gestos esta pele?

Nunca me deste irmãos

Só contigo reparto o meu farnel

De quotidianos fardos e alegrias

Breves e desta brasa em chaga

Que é a tua ausência nos meus dias

Órfãos mas sempre ao colo desta mágoa

De não te ter de te ter sido esquiva

De não te ter nunca aberto as portas

Do meu ser de nunca te ter dado vivas

O que hoje já só são carícias mortas



Teresa Rita Lopes, Cicatriz

10 comentários:

Zé Povinho disse...

Já conhecia o primeiro, mas o segundo não. Bonitos os dois.
Abraço do Zé

Graça Pires disse...

Como me comovi ao ler os dois poemas... Tenho saudades da minha mãe...
Um beijo.

Sam. disse...

Mãe..

"Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!"

(Mário Quintana)

tão infinita em sua grandeza que mesmo ausente em terra, vive eternizada em nossos corações!

lindíssima homenagem!

Grande abraço!

Fátima Pereira Stocker disse...

Minha cara Isabel

Cito de cor:

Respira, pois, seiva da duração
nos meus pulmões até, se te cansaste,
mas que eu sinta bater o coração
no peito onde em pequeno me embalaste!


Miguel Torga

Eu daria os meus dois pulmões para isso!

Um grande abraço

Filoxera disse...

Saudades. Se bem...
Beijinhos.

Andradarte disse...

Disse que gostava de Eugénio Andrade, e eu fiz um Post para Domingo....No entanto,é já a segunda vez que leio
este poema, nesta ronda pelos Blogs...
Mas eu também gosto, e vou Postar na mesma....
Abraço

AC disse...

Isamar,
Num tema inesgotável, a escolha denota grande sensibilidade e bom gosto.

Beijo :)

pinguim disse...

Não conhecia o segundo poema, que apreciei muito.
Mas este poema de Eugénio de Andrade é talvez a mais bela poesia dedicada a uma Mãe.

Idanhense sonhadora disse...

Como eu a entendo Isa , todos os dias tenho saudades da minha e já passaram 10anos ,duma tarde quente de julho que ela "adormeceu" nos meus braços...
Bj
Quina

gaivota disse...

este poema de eugénio de andrade traz-me uma dor... uma saudade imensaaaaaaaa
o da teresa rita não conhecia, mas é imenso!!!
bem hajas, querida
beijinhossssssssss milessssssssssss