sábado, 26 de maio de 2012

Deixo-vos um texto que me impressiona sempre que o leio. Espero que gostem e que reflictam na sua mensagem. Bem-hajam!

"Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.
E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.
E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que, pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.
E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:
- Mãe!
E logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:
- Mãe!
E logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia – como direi? – acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre (para sempre? Que quer dizer para sempre?). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como se fosse a voz longínqua do meu povo:
- Coragem!
Eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça (onde essa voz que mandava embora os fantasmas?).
E era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse:
- Bom dia!
era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.
Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia responder:
- Bom dia!
de cabeça erguida era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia 12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhas sobre os meus vinte e sete anos.
Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato (talvez o medo?), roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora (a mais solitária das horas), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás:
- Bom dia!,
mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.
É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?
Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:
- Mãe!
A voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?
Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto. No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.
Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.”
Manuel Alegre,in " Praça da Canção", 1965, Publicações D. Quixote

26 comentários:

Andradarte disse...

É bom recordar.....e meditar...
Adorei
Beijo

Fátima Pereira Stocker disse...

Cara Isabel

Desde que, pela primeira vez, me passou pelas mãos aquele singelo volume com capa de papel pardo, intitulado "Praça da Canção", que o texto introdutório me não sai da memória afectiva. O mesmo que a Isabel, ora, publica. E bem-haja por isso, sobretudo porque é a falta de memória que permite que o horror volte sempre outra vez.

Beijos

João Roque disse...

É das coisas mais lindas que Manuel Alegre escreveu.
Houve um ano que escrevi este texto numa folha e a mandei à minha Mãe no dia do seu aniversário.

Maria disse...

Nem consigo comentar.
É nossa obrigação passar o testemunho e evitar que esses anos negros voltem. Porque eles não desistem, mas nós temos mais força!

Beijo.

elvira carvalho disse...

Adoro este texto e já o postei no Sexta. O Texto não as rosas que nem de longe nem de perto são as minhas flores preferidas.
Um abraço e fico contente em vê-la de novo por aqui

Mar Arável disse...

Tempo de má memória

texto excelente

aflores disse...

Maio, para mim, foi sempre sinónimo de luta, mas isso é outra história... ou não.

Um excelente texto para reler, recordar, pensar e não esquecer.

Tudo de bom;)

Zé Povinho disse...

É a segunda vez que leio este texto e também a mim me abala, mesmo nunca tendo passado por esta situação.
Abraço do Zé

helia disse...

Um texto lindíssimo que adorei reler !

Filoxera disse...

Ainda não li este livro do Manuel Alegre. Mas o excerto emocionou-me tanto, que já ficou registado como um dos próximos. Obrigada :-)
Beijos.

Andradarte disse...

È de facto emocionante . Voltei para
ler em diagonal...
Eles andam por aí....!!!
Beijo

isa disse...

Dos textos mais belos de Manuel Alegre,na minha opinião.
Sem pc, por avaria e reparação que ñ mais acabava,só hoje volto.
Beijo.
isa.

Evanir disse...

Ter vc comigo é maravilhoso! Obrigada pelo carinho e sua amizade.
Obrigada por reservar um cantinho em sua vida. para abrigar o meu amor e carinho.
obrigada por partilhar comigo.momentos tão sublimes nesta troca gratuita de amizade!
Que Deus te proteja hoje e sempre.
Obrigada também por estar sempre comigo
em todos os momentos da minha vida.
E através dessa magica telinha que encontrei
alegria de viver e lutar sempre .
Aqui tenho amigos reais por isso
sempre digo.
Amigos para Sempre.
Um feliz e abençoado final de semana.
Beijos no coração,Evanir.
Não se esqueça que ..
Estou seguindo -te e te amando.

tulipa disse...

ACHA INTERESSANTE ESTA DESCRIÇÃO?
...
Como obra de arte,
o Chafariz dos Pasmados, poderá ser descrita da seguinte forma:

- Espaldar composto de um corpo central - de maior porte - e dois laterais, - recuados - de perfil superior recortado.

O corpo central é coroado por uma “rosa dos ventos”, em metal, facetado, com quatro pontos cardeais e oito colaterais, a qual está fixa num suporte em alvenaria que assente no frontão em forma de mitra.
Este, está separado da cartela central por um friso que corre a todo o comprimento da fonte.
Este frontão com um friso boleado toda a volta, tem no seu interior uma outra pequena cartela ladeada de dois ramos de loureiro por banda, contendo a seguinte inscrição:
“ANNO 1787”, ou seja, o ano da inauguração.

A cartela central é ladeada por duas pilastras, em cantaria, abauladas na face interior. Estas pilastras, assim como as outras duas dos cunhais da frontaria,
são rematadas por urnas, do cimo das quais saem flâmulas em espiral.

A cartela é rectangular mas nos topos formam arcos: côncavo no superior e convexo no inferior.

Sobre o superior, encontra-se o escudo de D. Maria I, (a soberana reinante em 1778), primorosamente esculpido em mármore.

No interior da reserva e assente numa peanha que faz secante ao arco inferior da cartela, está, adossado à parede, um formoso vaso florido esculpido em baixo-relevo no mármore.

Entre este e a bacia do chafariz, colocado na posição vertical, um golfinho, igualmente esculpido em mármore, com o corpo formando meia espiral, de cuja boca jorra, dia e noite água viva.

ENTÃO,
VENHA VISITAR-ME...!

Gostei do texto e da flor!
Obrigada pela partilha.
Beijo

poetaeusou . . . disse...

*
Isamar,
,
Como é bom ler Manuel Alegre !
Como é bom soletrar as suas palavras !
Como é bom cantar os seus versos,
Como é bom chamar-te Poeta !
,
E a politica, Pá,
Não te chegou Václav Havel ? . . .
,
conchinhas poéticas,
te deixo .
*

BRANCAMAR disse...

É extraordináriamente lindo este texto Isabel e embora o conhecesse gostei de o reler. Textos como este deveriam estar por aí afixados em todas as praças e ruas, para que não se perca a memória dos dias tristes.

Beijos para ti, para a tua Maria e para todos vós.

Branca

lagartinha disse...

Esses anos passaram-me ao lado devido à minha idade, mas, respeito muito quem lhes sobreviveu. Claro que para mim este texto não tem o mesmo significado que tem para um numero enorme de pessoas, mas não me deixa indiferente...Provavelmente a minha geração poderia ler mais textos destes e assim não cometer certas barbaridades sociais...
Beijo grande

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...traigo
ecos
de
la
tarde
callada
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


COMPARTIENDO ILUSION
CATA-VENTO

CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...




ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE BAILANDO CON LOBOS, THE ARTIST, TITANIC SIÉNTEME DE CRIADAS Y SEÑORAS, FLOR DE PASCUA ENEMIGOS PUBLICOS HÁLITO DESAYUNO CON DIAMANTES TIFÓN PULP FICTION, ESTALLIDO MAMMA MIA,JEAN EYRE , TOQUE DE CANELA, STAR WARS,

José
Ramón...

Lilá(s) disse...

Saudades...
Bjs

jorge esteves disse...

A Poesia de um Grande Poeta. Reli com o gosto de sempre.
Abraço.

Idanhense sonhadora disse...




Gosto da escrita de M:Alegre ...Em prosa ou verso , gosto ...Sabe Isa , nunca esquecerei a voz dele na rádio argelina que a minha geração ouvia ,escondida e baixinho na calada da noite ...Será que estamos a precisar de ouvir de novo essas vozes ?
Bj
Quina

BlueShell disse...

Aha...que bom que te encontro!!! Não é que te tinha "perdido"??? Acredita...andei em remodelações e perdi alguns blogs.

Conheço o texto.
É muito bom para se meditar. Já o "dei" numa aula , a propósito da auto biografia...e das memórias...
Bom te rever Isa.
BEIJOSSS

jorge esteves disse...

...e, se mal pergunto, por que haveria de parar o Catavento?...
abraço.

BlueShell disse...

Lembro-me de o ter lido, sim.
E continua a fascinar-me. Obrigada, querida.
BShell
(Isabel)

aflores disse...

Que pena este blog estar paradinho :o)

Volta

Volta


Tudo de bom.

Nancy L disse...

I enjoy my visit here.