quinta-feira, 19 de abril de 2012

Eu Sou Português Aqui





Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.
Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.
Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que em papa a terra que piso.
Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.
Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.
Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.
Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.

Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.
Eu sou português aqui

José Fanha

8 comentários:

elvira carvalho disse...

Um poema maravilhosos. De todos os que conheço dele o melhor!
Que bom que é vê-la de novo aqui.
Espero que a próxima psostagem não seja de parto tão demorado.
Um abraço

Lilá(s) disse...

De volta e com um poema maravilhoso! sempre bom recordar a leitura de algo que se gosta.
Bjs

João Roque disse...

Acho que está a ser necessário cada vez mais, não esquecer estas coisas.

lagartinha disse...

Amiga
Não vou comentar o poema, que a minha inteligência não dá para tanto, mas, no meu entender, andamos a precisar de algo que nos anime, que incuta um pouco de esperança, ou então, vamos acabar a ser aquilo que sempre negámos ser: "carneirada"!
Um dia isto melhora, nem que seja à chapada...
Bejokotones

Andradarte disse...

Que todos se compenetrem do que representa o 25 de Abril.....pois pode ser tarde se houver esquecimento.
Beijo

Ana disse...

Trazer o mês de Abril a voar dentro do peito ...sempre !

Beijo *

O Puma disse...

Abril sempre

olhos no Maio

Filoxera disse...

Adoro!
Ainda há dias publiquei no meu mural do Face o Fanha com este poema...
BEIJOS, amiga.