segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa -13 de Junho de 2011- 123 anos





Liberdade



Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"




Nasceu no bairro do Chiado, frente à ópera de Lisboa, a 13 de Junho de 1888.
Oriundo de famílias da pequena aristocracia, pelos lados paterno e materno, o pai, Joaquim de Seabra Pessoa, natural de Lisboa, era funcionário público do Ministério da Justiça e crítico musical do Diário de Notícias. A mãe, D. Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa , era natural dos Açores da Ilha Terceira.
Foi baptizado em 21 de Julho na Basílica dos Mártires, ao Chiado, tendo por padrinhos D. Ana Luísa Pinheiro Nogueira, tia materna, e o General Chaby. A escolha do nome homenageia Santo António, Fernando de Bulhões, de quem a família reclamava uma ligação genealógica.
As suas infância e adolescência foram marcadas por factos que o influenciariam posteriormente. A 24 de Julho de 1893, o pai morreu, com 43 anos, vítima de tuberculose. Fernando tinha apenas cinco anos. O irmão Jorge viria a falecer no ano seguinte, sem completar um ano. A mãe vê-se obrigada a leiloar parte da mobília e muda-se para uma casa mais modesta. Foi também neste período que surgiu o primeiro heterónimo de Fernando Pessoa, Chevalier de Pas, facto relatado pelo próprio a Adolfo Casais Monteiro, numa carta de 1935, em que fala extensamente sobre a origem dos heterónimos. A mãe casa-se pela segunda vez em 1895, por procuração, na Igreja de São Mamede, em Lisboa, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban (África do Sul), que havia conhecido um ano antes. Em África, onde passa a maior parte da juventude e recebe educação inglesa, Pessoa viria a demonstrar desde cedo talento para a literatura.
Em 1899 ingressa no Liceu de Durban, onde permaneceu durante três anos tendo sido um dos primeiros alunos da turma. No mesmo ano, cria o pseudónimo Alexander Search, através do qual envia cartas a si mesmo. No ano de 1901, é aprovado com distinção no primeiro exame Cape School High Examination e escreve os primeiros poemas em inglês. Na mesma altura, morre a irmã ,Madalena Henriqueta, de dois anos. Em 1901 vem com a família para Portugal, para um ano de férias.
Em Lisboa, mora com a família em Pedrouços e depois na Avenida de D. Carlos I. Na capital portuguesa, nasce João Maria, quarto filho do segundo casamento da mãe de Pessoa. Viaja com a família à Ilha Terceira, nos Açores, onde vive a família materna. Deslocam-se também a Tavira para visitar os parentes paternos. Nessa época, escreve o poema Quando ela passa.
Tendo de dividir a atenção da mãe com os irmãos, filhos do segundo casamento da mãe e com o padrasto, Pessoa isola-se, o que lhe propicia momentos de reflexão.
Tendo recebido uma educação britânica, que lhe proporcionou um profundo contacto com a língua inglesa, os seus primeiros textos e estudos foram em inglês. Mantém contacto com a literatura inglesa através de autores como Shakespeare, Edgar Allan Poe, John Milton, Lord Byron, John Keats, Percy Shelley, Alfred Tennyson, entre outros. Aliás, o Inglês teve grande destaque na sua vida quando, mais tarde, se torna correspondente comercial em Lisboa, além de o utilizar em alguns dos seus textos e traduzir trabalhos de poetas ingleses.
Fernando Pessoa fica em Lisboa, enquanto todos( mãe, padrasto, irmãos e a criada Paciência) que vieram com ele, regressam a Durban. Volta sozinho para a África no vapor Herzog. Matricula-se na Durban Commercial School, escola comercial de ensino nocturno, enquanto de dia estuda as disciplinas humanísticas para entrar na universidade. Nesse período, tenta escrever contos em inglês, alguns dos quais com o pseudónimo de David Merrick, que deixa inacabados. Em 1903, candidata-se à Universidade do Cabo da Boa Esperança. Na prova de exame de admissão, não obtém boa classificação, mas tira a melhor nota entre os 899 candidatos no ensaio de estilo inglês. Recebe por isso o Queen Victoria Memorial Prize («Prémio Rainha Vitória»).
Aprofunda a sua cultura, lendo clássicos ingleses e latinos. Escreve poesia e prosa em inglês, surgindo os heterónimos Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher. Publica no jornal do liceu um ensaio crítico intitulado Macaulay. Por fim, encerra os seus bem sucedidos estudos na África do Sul com o «Intermediate Examination in Arts», na Universidade, obtendo uma boa classificação.
Volta definitivamente a Portugal, a Lisboa, onde passa a viver com a avó Dionísia e duas tias. A mãe e o padrasto regressam também a Lisboa, durante um período de férias de um ano em que Pessoa volta a morar com eles. Continua a produção de poemas em inglês e, em 1906, matricula-se no Curso Superior de Letras (actual Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), que abandona sem sequer completar o primeiro ano. É nesta época que entra em contacto com importantes escritores portugueses. Interessa-se pela obra de Cesário Verde e pelos sermões do Padre António Vieira.
Em Agosto de 1907, morre a sua avó Dionísia, deixando-lhe uma pequena herança, com a qual monta uma pequena tipografia, na Rua da Conceição da Glória, Empreza Ibis — Typographica e Editora — Officinas a Vapor», que rapidamente faliu. A partir de 1908, dedica-se à tradução de correspondência comercial, uma actividade a que pode dar-se o nome de "correspondente estrangeiro". Nesta profissão, trabalha a vida toda, tendo uma modesta vida pública.
Inicia a sua atividade de ensaísta e crítico literário com o artigo «A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada», a que se seguiriam «Reincidindo…» e «A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico» publicados em 1912 pela revista "A Águia", órgão da Renascença Portuguesa. Frequenta a tertúlia literária que se formou em torno do seu tio adoptivo, o poeta Henrique Rosa, no Café A Brasileira, no Largo do Chiado em Lisboa. Mais tarde, já nos anos vinte, o seu café preferido seria o Martinho da Arcada, na Praça do Comércio, onde escrevia e se encontrava com amigos e escritores.
Em 1915, participou na revista literária Orpheu, a qual lançou o movimento modernista em Portugal, causando algum escândalo e muita controvérsia. Esta revista publicou apenas dois números, nos quais pessoa publicou em seu nome, bem como com o heterónimo Álvaro de Campos. No segundo número da Orpheu, Pessoa assume a direcção da revista, juntamente com Mário de Sá-Carneiro.
Em Outubro de 1924, juntamente com o artista plástico Ruy Vaz, Fernando Pessoa lançou a revista Athena, na qual fixou o «drama em gente» dos seus heterónimos, publicando poesias de Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, bem como do ortónimo Fernando Pessoa.
Pessoa foi internado no dia 29 de Novembro de 1935, no Hospital de São Luís dos Franceses, com diagnóstico de "cólica hepática", provavelmente uma colangite aguda causada por cálculo biliar e associada a cirrose hepática com origem no óbvio excesso de álcool ao longo da sua vida. Morre no dia 30 de Novembro, com 47 anos de idade. Nos últimos momentos de vida, pede os óculos e clama pelos seus heterónimos. A sua última frase foi escrita no idioma no qual foi educado, o Inglês: «I know not what tomorrow will bring» (Não sei o que o amanhã trará).

Adaptado do Google

17 comentários:

De Amor e de Terra disse...

E foram precisos tantos anos para lhe acharem o génio e o encanto...
obrigada minha querida menina por o lembrares e nos fazeres relembrar. Ele mereceu e merecerá para sempre.
Um beijo enorme de muita amizade
Maria Mamede

pinguim disse...

Pessoa intemporal...

isa disse...

Parabéns pelo teu post.
Trazer Fernando Pessoa de uma maneira mais "completa" é bom para
ajudar a lembrar certos dados.
Beijo.
isa.

Filoxera disse...

Fazes bem em assinalar a data.
Beijos.

JPD disse...

Depois de Camões, o nosso maior poeta.

Aquela arca é inesgotável.

Bjs

Fátima Pereira Stocker disse...

Cara Isabel

Pois é, Pessoa é do dia de Santo António!

Ainda outro dia, em aula de substituição, estive com uma turma (que não conhecia) a desmontar este poema, para que melhor fosse dito por quem o iria ler na maratona da poesia. E a turma aderiu e foi muito bom.

Obrigada por nos recordar o senhor do baú sem fundo.

Um abraço

Mar Arável disse...

Boa e oportuna memória

Graça Pires disse...

Poeta de sempre... Que todo o mundo admira.
Beijos.

helia disse...

Uma bonita homenagem ao nosso Poeta Fernando Pessoa ,em 13 de Junho, dia do seu nascimento.

Lilá(s) disse...

Ainda há dias tive o prazer de tomar café com "ele", sempre uma agradavél e silenciosa companhia.
Bjs

O Guardião disse...

Foi uma efeméride que me passou por motivos diversos, mas que por estas bandas teve o devido relevo.
Cumps

elvira carvalho disse...

Sabe que há bem poucos anos eu conheci Fernando Pessoa? É verdade, conhecia sim um ou outro poema e conhecia de nome, mas só há uns 5 anos atrás eu comecei a ler Pessoa, e os seus heterónimos especialmente Álvaro de Campos.
Um abraço

Mariazita disse...

Excelente biografia do grande Fernando Pessoa. Foi muito bom ler para recordar certos pormenores.
Esse poema é muito lindo; declamado por João Villaret é espantoso!

Bom fim de semana. Beijinhos

Idanhense sonhadora disse...

Ó como eu gosto de pessoa !!!! Será sempre o meu escritor ,não só poeta ..., preferido.
Beijinho
Quina

Vieira Calado disse...

Olá, Isabel!

Terei muito gosto em te encontrar

em Lagos.

Vou colocar o convite no meu blog, dentro de 2 ou 3 dias.

Terá as horas de visita.

Mas depois, se me disseres

se

e quando virás, eu estarei lá.

Tá bem?

Beijinho

Fragmentos Culturais disse...

Impensável deixarmos passar Pessoa! Náo é mesmo?

Um poema inspirador e que nos faz parar... sim, para respirar! Para fruir a vida!

Encantador, também! Sob a forma de liberdade!

Uma excelente semana para ti!

Um beijo amistoso

Petrus Monte Real disse...

É mesmo a melhor forma de homenagear Pessoa: falar de Liberdade.

Pessoa diz-nos, como ninguém, o que significa a poesia: a Vida, a Natureza!
Fantástico!
... e o melhor do mundo são mesmo as crianças!
Um beijo