quarta-feira, 30 de março de 2011

Algarve

Foto do google


Era assim que, há alguns anos, se calcorreavam os cantos desta região campesina. O burro, o macho, a mula eram os hóspedes de qualquer cabana que se prezasse. Não gosto de ser saudosista num sentido de oposição ao progresso mas lamento que estes animais estejam em vias de extinção por culpa de todos nós. Se deixaram de ser necessários, por que razão mantê-los, alimentá-los, cuidá-los? Que estranha forma de pensar! Infelizmente, assim falam muitas pessoas a quem pergunto sobre a razão da sua inexistência. Perdida a sua serventia, quer no transporte quer nos trabalhos da terra, passam a ser uma despesa desnecessária para quem os comprou e a vida não está fácil. E assim, pouco a pouco, se foram perdendo nas casas de lavoura, substituídos pelos tractores e outras alfaias cujo trabalho é mais rendível. Encontro-os , agora, nas comunidades ciganas em itinerância ou naquelas que ainda não vivem em bairros de habitação social. Confesso que tenho uma ternura muito especial por estes animais que me habituei a ver na cabana , bem escovados, a comer na manjedoura ou a sair para a fonte carregados de cântaros que, mais tarde, chegariam cheiinhos de água fresca num tempo em que por não haver electricidade eram a única forma de nos saciarmos quando a canícula apertava. Recordo as burricadas que na minha adolescência fazia com as amigas e que acabavam sempre em piquenique à sombra dos sobreiros ou das azinheiras desta zona serrana, fértil em água e, naquele tempo, também em trigo do qual se fazia o saboroso pão caseiro. Não raras foram as vezes que vi muitos serranos transportando sacos de trigo a caminho do moinho no dorso destes dóceis e pacientes animais. Ainda havia moleiros que o moíam em moinhos de vento ou em azenhas. Quantas vezes lá fui comprar milho para fazer as papas com linguiça frita, tradição do barrocal e da serra! Restam-nos as fotografias, nos álbuns que fomos criando ou as que alguns museus mantêm expostas para que da nossa memória e das gerações que nos sucederem não partam definitivamente. Será que não há quem se preocupe com a sua preservação? Não desistirei.

20 comentários:

Isa disse...

É sempre tão bom ler-te!
"Passar" pelo nosso Portugal,nas tuas recordações,como a de hoje.
Beijo.
isa.

pinguim disse...

Por vezes esquecemos estas coisas da vida, como a extinção dos burros, que fazes muito bem em aqui trazeres.
Só outros "burros" proliferam exponencialmente por aí...

Zé Povinho disse...

A doce memória que ainda nos vai fazendo reviver mentalmente um passado que se vai desvanecendo.
Abraço do Zé

aflores disse...

Fui pela primeira vez ao Algarve em 1978. Depois desse ano nunca mais falhei a minha "visita" anual até aos dias de hoje e que espero continuar.
Não me canso das terras, dos costumes, dos cheiros, dos amigos e familiares. Gosto do Algarve que a maior parte das pessoas não conhece...limitam-se ás praias e aos locais "in".
Eu prefiro o Algarve com identidade, com história.
E acredita, todos os anos me recebem de braços abertos e eu nunca me canso.

Aplaudo quem luta e tudo faz para manter os costumes e história da sua terra.

Bem hajas amiga.

Tudo de bom

Beijinhos.

Andradarte disse...

Pois é amiga....os 'burros 'de hoje,
deixaram de ser dóceis e se não nos
acautelamos....levamos cada coice.....
Beijo

gaivota disse...

toc toc toc... lá vai o burrinho!
como é bom saborear estas passagens dum ontem tão presente, tantas vezes...
e que bom será ter sempre estas vidas bem conservadas com cheirinho a natureza limpa!
bem-hajas minha querida por todas as memórias que nos trazes
beijinhossssssssss milesssssss

Idanhense sonhadora disse...

Olá Isabel ,mais um lindo artigo de recordações .Mas os burrinhos não estão esquecidos em todo o lado .No meu concelho são protegidos ,usados mesmo em terapia e passeio de crianças ; tal esta centralizado no Ladoeiro . Idanha-a-Nova .
Bj

Lilá(s) disse...

Que saudades desse Algarve...
Bjs

tecas disse...

E para terminar a visita a todos os seus blog, li o texto sobre o Algarve. Uma viagem excelente, fazendo-nos reviver o que foi antigamente o nosso país e como está perdendo as suas tradições.
Bjito querida e uma flor.

Fátima Pereira Stocker disse...

Cara Isabel

Texto muito bonito e que vem de encontro àquilo que costumo dizer: a vida não tem que ser justificada; ela tem direitos por si e em si.

Quando se pede que a vida seja justificada - sempre pela utilidade - permite-se que se extingam espécies, que exilemos os velhos em asilos e outras barbaridades ainda mais trágicas.

Às vezes o argumento da utilidade é usado às avessas: "se não fossem aos touradas, não existiria o touro bravo", dizem e, infelizmente, é verdade...

Tudo é colheita desta seara maldita que nos desligou das verdadeiras dimensões da vida e da natureza

amigona avó e a neta princesa disse...

Claro que há que, quem como nós, se preocupe! Há alguns projectos por esse Páis fora que cuidam da continuidade destes nossos amigos!
Infelizmente não são tantos como eles mereciam.

Um abraço minha amiga...apertado...

Filoxera disse...

Lembro-me de visitar a terra onde a minha mãe nasceu (Mértola), aos 9 anos, e correr atrás dum macho que transportava um senhor de idade, para não deixar fugir a oportunidade de fotografá-los.
:-)
Beijinhos.

Há.dias.assim disse...

é bom recordar e divulgar, para que as memórias não se esqueçam.

Ana disse...

Não desistas ! Embora, tendo sido sempre citadina, não possa ter as mesmas memórias destes animais , também sinto por eles uma ternura inexplicável.
E os teus textos tornam tudo tão especial!
Um beijo, amiga *

Mar Arável disse...

Sem memórias

não é possível construir bons amanhãs

© Piedade Araújo Sol disse...

um texto de memórias que gostei de ler.

beij

Graça Pires disse...

Um excelente texto feito de memórias de outros tempos e cheio de ternura...
Um beijo.

rouxinol de Bernardim disse...

Excelente esta peregrinação ao passado...

JPD disse...

O relato que tão fielmente editas também o conheci.
É um facto: o desaparecimento do burros do quotidiano do Algarve é inexorável.
Os campos estão ser abandonados para dar lugar a vivendas e aldeamentos que adorarão animais mas preferem os que estão instalados na potência dos automóveis.
Custa, mas é uma verdade incontornável.

Belíssimo texto, Isamar

AC disse...

E faz muito bem em não desistir. Aliás, as suas palavras são autêntico contributo para que a memória prevaleça. E todos sabemos da sua importância na identidade de um povo.

Beijo :)